domingo, 23 de setembro de 2012

A imagem de cada vez.

Hoje eu acordei de ontem, quando lembrei Barros: acordei como inseto. Mas eu não tava nem aqui nem acolá, estava casca de árvore. Percorri pelo corpo, tinha prazer de uma boa dormida. Lembrei da noite passada sobre o que exatamente faria no dia seguinte: acordar!!! Mas não era só isso, era muito mais claro. Era dia de rendição. Hoje eu acordei de ontem. Quando vi estava levantado de um sono gostoso, sentei no vaso e mijei. Enquanto a água ferve, pus-me nu para roupa da rendição. Hoje eu acordei de ontem. O dia gostoso, curiosa a entrada da primavera nesses dias, pois de fato, a chuva acalmou os ânimos da cidade.
Hoje eu acordei de ontem. Vagamente nesse inicio de manhã, eu lembrei do raio da chuva de sexta. eu disse que a chuva veio acalmar os ânimos da cidade e trazer bons presságios. hoje eu acordei de ontem e espero a boa nova da primavera. Hoje eu acordei de ontem. Depois que a água ferveu foi pó preto, bem preto e cheiroso do café no papel-coador, um pouco de açúcar: meio amargo! Hoje eu acordei de ontem. fui ver os vazios dos quartos, das visitas inexistentes em casa e lembrei que precisava ser rápido para rendição. Hoje acordei de ontem. Tinha cuscuz na vasilha do sábado, eu mesmo fiz, um pouco salgado. Hoje eu acordei de ontem. Fui as roupas para velar minha nudez, percebi uma ereção matinal, pouco importava...Hoje eu acordei de ontem. Lembrei o quanto uma alegria, uma fortaleza e reminiscências de uma aula sobre trabalho e humildade contagiava. Hoje eu acordei de ontem. Peguei o metrô e em seguida um ônibus, não me importava a má mobilidade da cidade. Demora, a gente pensa, silencia, lê e observa as pessoas. Agora não lembro folha seca e areia molhada, só concreto e dia cansado de domingo. Acordei inseto e virei coruja. Hoje eu acordei de ontem. Ao adentrar o quarto....quer dizer um pouco antes disso, pensei que o humor e a energia poderia contagiar qualquer ambiente....Hoje acordei de ontem. que dia gostoso fez, acho que foi uma noite bem dormida. Entrei vi meu irmão antes e meu pai deitado depois, na cama de hospital - de ferro. Ferro enferruja, faz barulho com o tempo. Hoje acordei de ontem. Primeiro um olho depois outro, não lembro qual mas o esquerdo tende a preguiçar mais. O gosto do cuscuz estava bom, um pouco salgado. Enchi a mochila de guarda-roupas de escritórios de salas de aula de bibliotecas de pensamentos de tecnologias de saúde e de coragem. Hoje eu acordei de ontem. Rendi meu irmão e fiquei com meu pai. Por poucos momentos penso que a doença é triste e dolorosa, mas depois penso no seu desafio. Hoje eu acordei e vi o centro do mundo no merecimento das escolhas, das ingestões, da preguiça, do calor e do frescor...vi, mas não vi. Invento. Hoje eu acordei de ontem. Falei com doutores, animais, insetos, iluminâncias. É grave. Seu olhar não perde a seriedade e a bondade. Não sei se andei muitos quilômetros até o nada, mas acho que alguém compreende o caminho desconhecido da vida. Hoje eu acordei de ontem. Espantei o chão negro e fiz-me inseto na casca de árvore. Tenho pensado na fortaleza e na força. Encontrei alguns amigos no dia anterior, fez-se água, calmaria, amor. Tudo cheira família. Hoje eu acordei de ontem.
Agora estou aqui e as imagens passam a todo instante: do filme, do programa musical, do programa banal, da rede social, do olhar continuo, cansado e fraternal do meu pai, das imagens perigosas do pensamento, que insistem na oscilação de vontades e desejos, bons e maus. As imagens das pessoas...eu ri porque vi imagens que não existiam, pelo menos ainda. Eu nem sei mais como que coisa existe, uma hora tá lá, outra hora se esconde de mim, penso que quando se escondem elas inexistem. Mentem para o olhar. Que nada! Quando se escondem as imagens continuam a vida, porque tudo que não vejo respira também.
Hoje eu acordei de ontem. As horas não cansam, os corações encharcados de tanto sentimento.

domingo, 16 de setembro de 2012

imagens orgulhosas, imagens que sofrem, imagens que calam

Tanto tempo percorre as imagens e seus flashes. Heráclito pressagiou o sentido do tempo metaforizando o rio que nunca é o mesmo, que percorre, que processa.
Quando criança explicaram coisas más com um olhar maldoso, nasceu a imagem orgulhosa, ressentida, medrosa, despontente. A imagem sofredora de agora carregou a pressão dos subúrbios, do escasso, da indisposição, da falta de paciência, por isso gostava tanto da sensação da fumaça que estampava nuvens. Estas nuvens que são formadas pelo calor incidente nos rios. Vejamos que o tempo evapora também. E o tempo e a fumaça cansaram e quiseram orgulhos, sofrimentos e silêncios.
Amanhã chega o dia de mais um acolhimento dos expurgos da fumaça e do tempo. A imagem cansada sofre pela dor, e silencia ardorosamente para o bem das várias imagens infantis e orgulhosas que não mais se cumprimentam, nem bom dias e noites, só balbucios.
O que preocupa aqui, esta imagem orgulhosa, não é o diálogo mas, as cores que não são tão intensas. Estas cores das imagens orgulhosas brilham na segunda porque um monte de boas palavras acolhem seus tons, dão contrastes e perspectivas futuras. Mas a imagem que agora sofre tosse e incha sua superfície/aparato, (isso(!) o envolucro/envoltório) desperta sentimentos que as imagens orgulhosas não querem expor, porque são sentimentos mesquinhos e tiranos.
É porque antes nenhuma imagem preocupava-se com a imagem maculadora do inimigo invisível. As imagens mentais, ou este inimigo invisível, mora no coração das imagens orgulhosas, temerárias e caladas. É preciso dizer realmente o que deixou de pensar, é preciso também, contraditoriamente, parar de falar e de pensar, porque os pensamentos das imagens não as situam no presente, porque o rio já passou, por isso que o outro filósofo, Deleuze, disse para ficarmos quietinhos. Desde que a imagem saiba que seja tudo impermanente permite-se os pensamentos, enquanto durem, daí podemos conversar no próximo post sobre as imagens humildes, alegres e saudáveis.